Qual o futuro da humanidade nascida por cesariana?

Documentário defende o parto humanizado e discute como a forma de nascer interfere na capacidade de amar

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Mamães, está todo mundo falando do documentário “O Renascimento do Parto”. Esse texto da Ana Lis Soares, da Pais & Filhos, explica em detalhes todas as polêmicas e questões que estão por trás do fato de que, no Brasil, grande parte das crianças nascem por meio de cesarianas. Com a palavra, a Ana Lis:

“Qual o futuro da humanidade nascida por cirurgia cesariana, pela ocitocina sintética?”. Essa é a pergunta feita pelo médico francês Michel Odent, considerado um ícone do parto normal, que participa do documentário “O Renascimento do Parto”, e resume a filosofia defendida no longa-metragem (lançado no dia 9 de agosto).

Criado para valorizar o parto humanizado – sem interferências médicas e tecnológicas, o filme traz dados que nos fazem refletir sobre a epidemia da cirurgia cesariana em nosso país, que chega a 52% dos partos (em hospitais privados, este número atinge 90%). Para se ter ideia, em países desenvolvidos, como a Holanda, o número de cesarianas se resume aos 15%, o equivalente à taxa esperada de partos de risco.

Especialistas entrevistados no filme trazem muitas explicações para o exagero de interferência durante os partos, questões que envolvem desde comodidade na agenda de médicos até mitos culturais incutidos nas mentes de mães e familiares.

Em defesa do parto humanizado, uma das propostas do filme é que o obstetra seja mais visto como “herói do hospital”, realizando cesarianas e interferências tecnológicas quando realmente for necessário, do que como o protagonista do parto, como ocorre no Brasil.

O Renascimento do Parto prega a diminuição imediata da interferência do médico e a suspensão do uso de hormônios artificiais (como ocitocina, prolactina), que aceleram as contrações, de cortes e da anestesia, e acredita que o nascimento de forma mais fisiológica e natural resultará em uma humanidade melhor. O documentário traz questionamentos sobre a violência do parto cesárea e ressalta que o nascimento é fundamental na construção da capacidade de amar do ser humano.

De acordo com o diretor Eduardo Chaveut e a roteirista e produtora Érica de Paula, a ideia do projeto surgiu em 2011, quando perceberam a falta de informações de qualidade sobre o assunto “parto e nascimento”. O objetivo é conscientizar as mulheres sobre a possibilidade de um “parto mais respeitoso e, consequentemente, melhor para ela e o bebê.”A essência está em outra frase emblemática de Michel Odent: “Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer.”

A era do parto tecnocrata

Uma cesariana leva de 15 a 20 minutos para ser realizada, já um parto humanizado pode durar um dia inteiro. Para fazer um procedimento de parto, o médico brasileiro ganha, em média, R$180. Então, qual situação seria mais “compatível” com a agenda de um profissional? Qual seria mais vantajoso em termos financeiros? Muitos fatores podem ser levantados quando nos perguntamos por que fazemos tantas cesarianas. E um deles, indicado pelo documentário, seria essa incompatibilidade de “custo benefício”. Um dado é apresentado para ilustrar a tese: em vésperas de feriados, o número de cesarianas é ainda mais alto que o normal.

A antropóloga Robbie Davis-Floyd, uma das entrevistadas no filme, elenca os paradigmas ou modelos da nossa sociedade: tecnocrata, holístico ou humanizado.

No modelo tecnocrata, a mente e o corpo são tratados separadamente. O corpo é objeto e o pensamento é “se dá para fazer [um procedimento] com tecnologia, que se faça com tecnologia”. A mãe também seria vista como um número, ou seja, “a cesariana do quarto 130”, por exemplo.

Ainda sobre esse modelo, há o pensamento que cesariana não oferece riscos, mas Esther Vilela, gestora do Ministério da Saúde, afirma no documentário que “quando mal indicada, a cesariana coloca a mãe e o bebê em risco, três vezes mais que no parto normal”. Seriam desde complicações hemorrágicas e infecciosas até a prematuridade do bebê, mais frequente quando o parto é programado.

Para Esther, a mulher perdeu o protagonismo no parto para o médico. Hoje, ela é tratada como problemática, defeituosa. Muitos são os “defeitos” apontados: ela não é capaz de parir porque o bebê é grande demais ou pequeno demais, é muito magra ou muito gorda, muito velha, ou nova demais, não tem grau de placenta suficiente etc. De acordo com o documentário, muitos empecilhos são colocados para que o parto humanizado não seja escolhido e que a cesariana surja como “a salvadora” a vida de mãe e filho.

Mitos

Quanto aos mitos em torno do parto, grande parte surge no pré-natal. Nesse período, as grávidas que dizem ter optado pelo normal ouvem falar das histórias de pessoas distantes que tiveram problemas, recebem ‘parabéns’ pela coragem e muitas têm sua escolha mal vista pela família. É a cultura de que o parto normal dói e é perigoso.

Entretanto, o motivo mais comum da rejeição ao parto normal é o circular do cordão (quando o cordão umbilical se enrola no pescoço da criança). Nos exames de ultrassom, é comum que os médicos apontem a situação e encorajem a cesariana para evitar complicações. Mas, uma das entrevistadas no documentário afirma que isso acontece em 40% dos casos e que o bebê “não morreria por isso”.

Alguns profissionais afirmam que, com tantos mitos, a grávida passa a desacreditar que seja capaz de parir seu filho. Para a produtora Érica de Paula, as mulheres no Brasil desconhecem os benefícios do parto normal e os riscos de uma cirurgia desnecessária, “pois, certamente, pouquíssimas escolheriam uma cirurgia de grande porte como via de nascimento”, afirma.

Cesariana e a prematuridade

Um dos médicos entrevistados para o documentário faz o seguinte questionamento: “Nós combinamos com o bebê que ele vai nascer sexta-feira, às 16h? E se combinamos, ele respondeu positivamente?”.

Nesta linha de pensamento, o filme aborda os riscos de prematuridade nas crianças nascidas de parto agendado, uma vez que os aparelhos de ultrassom não são tão exatos no final da gestação, tendo uma margem de erro de duas semanas. Sendo assim, pode-se interpretar que um bebê de 36 semanas esteja com 38 e o parto é realizado “antes da hora”, ocasionando internações em UTI para ganho de peso e desenvolvimento.

Muitos outros assuntos são abordados, sempre com novas perguntas e com algumas respostas, na maior parte das vezes conflitantes com teorias e práticas vigentes. O documentário “O Renascimento do Parto” vem para provocar reflexões sobre assuntos que dizem respeito a todos nós: a vida, o medo, a sexualidade, o nascimento, a dor e a beleza. Coloca o parto humanizado como um desafio ecológico lançado para mães e pais. Érica resume: “Se conseguirmos ultrapassar a barreira do medo, podemos vivenciar uma experiência de absoluta plenitude e conexão com algo maior. Um parto que respeita o protagonismo feminino pode ser a experiência mais poderosa da vida de uma mulher. Algo como: ‘se meu corpo deu conta de gerar e parir uma criança, significa que eu sou capaz de fazer qualquer coisa’.”

Mamães, fica a dica então para vocês assistirem a esse documentário que está dando o que falar. Assistam aqui o trailer oficial do filme:

Vejam outros textos da Pais & Filhos para as gestantes no SOS Grávida.

Beijos, da Mamãe Prática Mari.

2 comentários em “Qual o futuro da humanidade nascida por cesariana?”

  1. É muito bom ver o interesse de alguns poucos em gritar pela humanização do nascimento de uma vida. É lindo gerar uma vida, agora poder dar a luz naturalmente é espetacular, graças a DEUS, a minha mãe e meu pai, tiver um parto normal, digo graças a eles porque escolher ter um parto normal pelo SUS e um horror, como somos violentas, como fui violentada, como há descaso, como são despreparados os profissionais, se não fosse a experiência de minha mãe e de meu pai e DEUS do meu lado, não sei se teria conseguido. Sou enfermeira, meu pai é enfermeiro obstetra, nasci em um berço voltado para humanização. Optei por ter meu parto pelo SUS, porque sei que se tivesse optado pelo particular, tudo teria sido diferente, porque tudo que precisamos na hora das dores e de apoio, e não de um médico ficar falando que é melhor fazer uma cesária, porque o bebe não quer descer, você não dilata, vai passar da hora, o bebe está correndo risco, ou seja, estamos sentindo forte dores, e como o médico quer terminar esse parto logo, ele vai atrapalhar tudo, optei pelo SUS, foi melhor assim, mesmo tendo sido maltratada. Enfim é lindo ver o interesse de vocês em estudar e divulgar esse tema tão relevante para a humanidade leiga de tudo, e amordaçada p/ e enganada pelos interesses financeiros de alguns “profissionais”. Queria poder gritar sobre esse descaso, porém só consigo escrever esse simples desabafo. Obrigada!

  2. Pergunto devido a minha ignorância: uma mulher com gestação de um único bebê, sempre terá uma porcentagem de quanto para ter um parto normal ou natural? Leio e defendo esse tipo de parto, mas as vezes observo que se defende com unhas e dentes tanto que sinto que quem faz cesariana, torna-se meio marginalizado. Creio que a margem de mulheres que podem ter um parto sem intervenção cirúrgica é um privilégio, mas e em uma emergência, não há como evitar passar pelo bisturi. Minha esposa tem uma gravidez de gêmeos fraternos e optamos pela cesariana por segurança. A geração “ocitocina sintética” é um grupo tão normal quanto os de parto normal ou natural, o problema são os médicos que querem levar algum ganho monetário pelo nascimento.

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